Maria Clara F. Coimbra
Caminho na rua da Matriz com
dificuldade.Tenho que usar um salto alto e um vestido que se arrasta no
chão.Papai me obriga, nenhuma mulher usa calças, mas as épocas são outras e
temos modelos mais curtos.Não discuto.Visto-me com raiva.
A carruagem quebrou e saio com Matilde, a
governanta. Desde que mamãe faleceu é a ela que confio tudo.
Hoje papai vai embarcar para Portugal a
negócios. Vou despedir-me no cais. Diabos. Meus pés doem. Isso é jeito de moça
falar?
Antônia. 16 para 17 anos. Assim é como sou
apresentada para Pedro. Segundo meu pai, meu futuro marido. Vou me casar, em
março. Vou me casar como mamãe, que em um dia me contou que se casou sem nenhum
sentimento por papai e ao longo da vida aprendeu a amá-lo. Não quero. Já estou
decidida sobre o que fazer, enquanto penso em Joaquim. Namoro-o escondida há alguns
meses e já é o bastante para saber que não preciso aprender a amá-lo. Boa
viagem, papai.
Na calada da madrugada, encontro-me com
Joaquim que já está de malas prontas. Roubei dinheiro do cofre da família,
despedi-me de Matilde. Amo você. Lágrimas nos olhos. Vá com Deus.
E minha vida
começa com Joaquim. Para onde vamos? Eu não sei. Visualizo a Igreja Nossa
Senhora dos Remédios e passa pela minha mente tudo, desde minha infância. Tudo
o que eu passei nessa cidade enquanto ofegante subo no barco do pai de Joaquim.
Eu te amo. Felicidade corre nas minhas veias. Eu também.
Vemos a cidade ficar para trás e toda a felicidade para frente.

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